No Brasil, dentre as pragas que atacam a videira cultivada para o mercado de uva de mesa, de uma forma geral, merecem ser citadas a mosca das frutas, os tripes, as cochonilhas (farinhentas, pérola-da-terra), os ácaros (branco, rajado), broca dos ramos, mosca branca e as traças dos cachos. Diferentes estratégias de manejo podem ser adotadas conforme o sistema de produção e a região de cultivo.
Mosca-das-frutas
(C. capitata e A. fraterculus)
Possuem asas com desenhos característicos e ovipositor proeminente, cuja forma varia entre as espécies. As larvas são branco-amareladas, ápodas, afinadas na cabeça e “achatadas” na região posterior, podendo atingir 8 mm. A pupa é marrom com formato de barril, com cerca de 5 mm.
Sintomas: As fêmeas fazem postura inserindo o ovipositor na casca. As bagas infestadas apresentam uma perfuração que se amplia até que deixem a baga para empupar no solo. Podem fazer galerias próximas da casca. O local torna-se mole e apodrecido, deixando os frutos impróprios para comercialização.
Controle: Os cuidados devem ser iniciados aos 60 dias após a poda, intensificando-se próximo à colheita. A área deve ser monitorada usando armadilha Jackson com trimedlure para C. capitata e McPhail com proteína hidrolisada para A. fraterculus. O controle cultural é importantíssimo, com retirada semanal das bagas infestadas dos cachos, enterrando-as com 30 cm de terra ou colocando em sacos plásticos resistentes. Se o nível de infestação estiver alto, deve ser usado o controle químico, com produtos registrados e seguindo as recomendações de rótulo. Pode-se também fazer a coleta massal com atrativo alimentar na periferia do pomar. Em infestações muito altas, pode ser usado o controle biológico com fungos entomopatogênicos no solo.
Foto: Tiago Costa-Lima
Traça-dos-cachos
(Cryptoblabes gnidiella)
A traça-dos-cachos da videira provoca sérios danos à cultura, principalmente às frutas destinadas à fabricação de vinhos. Os ovos são postos isoladamente, nos pedúnculos. Inicialmente são brancos e posteriormente se tornam alaranjados. No início do desenvolvimento, as lagartas apresentam coloração laranja claro, passando para cinza, com duas listras longitudinais pretas. No último instar, a lagarta é envolvida por uma fina teia, depois se transforma em pupa no próprio cacho. O adulto é um microlepidóptero de coloração acinzentada.
Sintomas: As lagartas podem se alojar no interior das inflorescências e/ou dos cachos ainda verdes, onde comem a casca do engaço, causando o seu murchamento e, consequentemente, o secamento das bagas. Quando atacam próximo à colheita, provocam o rompimento das bagas, extravasando suco sobre o qual se proliferam bactérias que provocam a podridão ácida, tornando a uva imprópria tanto para a elaboração de vinhos quanto para o comércio in natura.
Controle: Por ser até pouco tempo considerada praga de importância secundária no Submédio do Vale do São Francisco, seu nível de ação ainda não foi quantificado. No entanto, têm-se observado parreirais destinados à produção de vinhos com perdas de até 40% dos cachos na colheita.
Foto: José Eudes de Moraes
Traça-da-videira-sul-americana
(Lasiothyris luminosa)
A lagarta de L. luminosa pode penetrar em diferentes estruturas da videira, como botões florais, flores, engaço e bagas.
Sintomas: Na inflorescência apresenta pontos ressecados e une flores e estruturas por meio de uma teia. Na fase de chumbinho, ela permanece no cacho, mas é difícil de ser visualizada. No pré-amolecimento, as bagas infestadas começam a apodrecer. É comum encontrar duas bagas unidas pela teia produzida pela lagarta. As lagartas recém-eclodidas possuem cabeça preta e corpo creme. Em estádios mais avançados, a cabeça se torna alaranjada e o corpo mais amarelado e transparente, com até 4 mm.
Controle: Do início da formação do botão floral até a floração é o período crítico de controle. O raleio com os dedos na pré-floração auxilia na abertura da inflorescência, tornando as pulverizações mais eficientes, além da mortalidade direta de lagartas recém-eclodidas. O espinetoram é o único inseticida sintético registrado no MAPA para a praga. Para o controle biológico da fase de ovo, há registro do parasitoide Trichogramma pretiosum, que pode ser liberado ao longo de todo o ciclo. Também é essencial a prática de limpeza e enterrio das bagas com danos na fase de maturação.
Foto: Tiago Costa-Lima
Cochonilha-pérola-da-terra
(Eurhizococcus brasiliensis)
É uma cochonilha subterrânea, somente prejudicando as plantas na fase de ninfa, pois os adultos não possuem aparelho bucal. Ataca várias frutíferas, porém, apenas na videira é considerada praga de expressão econômica.
Sintomas: A sucção da seiva nas raízes provoca o definhamento progressivo, redução da produtividade e, até mesmo, a morte das plantas. O declínio das plantas é resultado da injeção de toxinas pela cochonilha. Em parreirais adultos, as folhas apresentam-se amareladas entre as nervuras (de maneira semelhante à deficiência de magnésio), os bordos das folhas ficam encarquilhados, podendo ocorrer, em alguns casos, queimaduras nas bordas. As plantas atacadas, geralmente, apresentam-se pouco vigorosas, com entrenós curtos, posteriormente entram em declínio e morrem.
Controle: Devido ao hábito subterrâneo e ao desenvolvimento em forma de cisto, essa praga não responde aos métodos convencionais de controle. Medidas de prevenção incluem: não utilizar solo da área infestada para a produção de mudas, não plantar em áreas com histórico de ocorrência da praga; isolar áreas infestadas, para evitar disseminação do inseto por implementos agrícolas. O uso de porta-enxertos resistentes e/ou tolerantes é um dos mais promissores métodos de controle.
Foto: Marcos Botton
Cochonilha-farinhenta
(Planacoccus spp. e Maconellicoccus hirsutus)
As cochonilhas-farinhentas são insetos sugadores, de corpo macio ovalado e coloração rosa a esbranquiçada, com o corpo recoberto por uma substância cerosa branca assemelhando-se a um algodão pulverulento ou farinhoso. Possuem pares de filamentos cerosos ao redor de todo o corpo.
Sintomas: Como resultado do ataque das cochonilhas-farinhentas, os danos tanto diretos como os indiretos resultam na redução fotossintética da planta, redução do vigor e redução da qualidade dos frutos. Com a liberação do honeydew, as cochonilhas recobrem a superfície foliar com esta substância açucarada rica em carboidratos levando ao desenvolvimento de uma camada escura denominada fumagina e, consequentemente, o produto fica depreciado por causa da condição inadequada da comercialização.
Controle: Existem diversos métodos de controle da cochonilha, sendo que o controle com emprego de produtos químicos ainda são os mais comuns. Os métodos químicos de controle da cochonilha devem ser aplicados apenas com uso de produtos registrados. Esses produtos podem ser aplicados de diversas formas, como pulverização, injeção no solo ou aplicação direta na planta.
Foto: José Eudes de Moraes
Cochonilha-de-carapaça
As cochonilhas-de-carapaça (Hemiberlesia lataniae e Duplaspidiodus tesseratus) são pequenos insetos de aparência rígida com estrutura quitinosa. As fêmeas adultas geralmente têm corpos moles, porém ficam protegidas sob as escamas em forma de cúpula, secretando quantidades de cera para proteção. As cochonilhas inserem o aparelho bucal nos tecidos das plantas e permanecendo fixa, alimentando-se de seiva.
Sintomas: As cochonilhas infestam de forma agregada ao tronco e aos ramos da videira e, ao se alimentarem, enfraquecem as plantas, podendo provocar a morte destas.
Controle: Deve-se observar o tronco das videiras abaixo da casca. Em caso de infestação elevada, deve ser realizado o controle de forma localizada na entressafra do cultivo, evitando o emprego de inseticidas de amplo espectro (consultar produtos registrados para a cultura). Deve-se fazer uma limpeza da casca durante a fase de dormência e/ou repouso vegetativo da cultura, esta prática pode ser feita manualmente, com o auxílio de escovas após uma chuva.
Foto: José Eudes de Moraes
Ácaro-branco
(Polyphagotarsonemus latus)
É uma espécie que tem um grande número de hospedeiros, constituindo-se em uma das principais pragas da videira, no Nordeste brasileiro. Seus ovos têm cor branca ou pérola, são opacos, achatados e postos isoladamente na face dorsal das folhas novas. As larvas são bastante móveis, possuem cor branca, apresentando uma mancha opaca no dorso. A pupa tem o tamanho correspondente ao de uma larva no fim do seu estágio de desenvolvimento, sendo transparente no início e, posteriormente, opaca, com as extremidades afiladas, por onde se prende ao tecido vegetal.
Sintomas: O ataque é observado em folhas novas, de ponteiros e brotações. As injúrias são caracterizadas pela coloração verde brilhante e encarquilhamento das folhas jovens. Infestações podem resultar em perdas significativas na produtividade e qualidade das uvas, devido, principalmente, à paralisação do crescimento ou atrofiamento dos ramos.
Controle: O nível de controle varia ao longo do ciclo fenológico da videira, devendo ser adotada a medida de controle quando for encontrado um índice de infestação de ácaros ≥ 10% até a metade do seu ciclo da cultura, a partir daí o nível adotado passa a ser ≥ 20% de folhas infestadas, devendo se prolongar até 30 dias após a colheita, bem como durante toda a fase de repouso.
Foto: José Eudes de Moraes
Ácaro-rajado
(Tetranychus urticae)
O ácaro-rajado é uma das principais pragas agrícola para a economia mundial. É de ocorrência em inúmeras variedades de plantas cultivadas ou não, causando elevadas perdas, sobretudo em videiras. A fêmea apresenta duas manchas verde-escuras, uma em cada lado do dorso. As condições climáticas da região Nordeste, predominantemente quente e seco, favorecem o desenvolvimento deste ácaro durante todo o ano, principalmente durante o segundo semestre, quando a temperatura é mais elevada.
Sintomas: Sintomas do ataque são observados na face ventral das folhas da videira e caracterizados por manchas avermelhadas, podendo tornar-se necrosadas e/ou secar totalmente. O ataque pode ocorrer em folhas de qualquer idade, sendo preferencialmente nas folhas mais jovens. No caso da ocorrência de populações elevadas, esse ácaro pode comprometer, de maneira significativa, o desenvolvimento das plantas e, consequentemente, a produtividade.
Controle: O nível de ação ou de dano é atingido quando 30% ou mais de folhas estão infestadas com o ácaro-rajado, no período que vai da brotação até o início do amadurecimento das bagas. O mesmo procedimento deve ser adotado para a fase de repouso.
Foto: José Eudes de Moraes
Ácaro-vermelho
(Oligonychus punicae)
Espécie polífaga, ocorre nas principais regiões produtoras de uvas do Brasil. As fêmeas ovipositam preferencialmente na região adaxial da folha, permanecendo em incubação durante 4 dias a uma temperatura ambiente de 28°C. Os estágios de larva, protoninfa e deutoninfa duram, em média, dois dias, resultando em um ciclo de desenvolvimento médio de 11 dias A longevidade para indivíduos machos varia de 11 a 16 dias, enquanto para as fêmeas é de 6 a 12 dias, possibilitando em média 21 gerações por ano.
Sintomas: Plantas atacadas por esses ácaros, inicialmente, apresentam manchas claras na superfície foliar, que podem evoluir para um bronzeamento, devido ao processo de alimentação e extrazamento do conteúdo celular. Em infestações intensas, é possível observar o aparecimento de delicados fios de seda nos quais se acumula poeira. As injúrias tornam-se mais acentuadas durante a estação seca, com aumento significativo da população.
Controle: No Brasil, ainda não existem produtos químicos registrados para o controle do ácaro-vermelho em videiras. Em algumas partes do mundo, incluindo o Brasil, adota-se o controle biológico, com a liberação de ácaros predadores da família Phytoseiidae. Atualmente, há registro do ácaro predador Neoseiulus barkeri para o controle de ácaros tetraniquídeos, inculindo O. punicae.
Foto: Samara Santos
Tripes
Várias espécies de tripes têm sido encontradas com bastante frequência, sendo as mais importantes Retithrips syriacus, Selenothrips rubrocinctus e Frankliniella spp. Os tripes são insetos com variações de coloração e com tamanhos variando de 1 a 2 mm de comprimento. A fêmea introduz os ovos sob a epiderme da folha, cobrindo-os com uma secreção. As ninfas, de acordo com a espécie, têm coloração das mais variadas, como também a preferência de ataque varia de acordo com a espécie.
Sintomas: A depender da espécie, formas jovens e adultas podem atacar folhas, inflorescências e frutos da videira. Ao atacar os frutos, ocorrem manchas amarelas cloróticas e nas folhas coloração ferruginosa, com pontos escuros. Em função do ataque, surge o aparecimento de manchas amarelas cloróticas que evoluem para a cor marrom. Quando o ataque é intenso, proporciona a “queima” da folha e, consequentemente, a sua queda, podendo provocar um desfolhamento parcial ou total da planta.
Controle: Para as espécies de tripes, o nível de ação será alcançado quando 20% ou mais de folhas estiverem infestadas e/ou 20% das inflorescências e/ou cachos estiverem com, pelo menos, dois tripes.
Foto: Tiago Costa-Lima
Cigarrinhas
(Empoasca spp.)
Entre as maiores pragas em videiras no mundo, as cigarrinhas são pequenos insetos de colaração verde claro, ágeis e com enorme capacidade de dispersão. Seu aparelho bucal é caracterizado como picador-sugador, utilizado para se alimentar de tecidos vegetais, inclusive extrair seiva. A postura é endofítica, sob a epiderme foliar.
Sintomas: Clorose ou avermelhamento das bordas das folhas da videira. Dependendo da cultivar, quando o ataque é mais pronunciado, as bordas das folhas podem atrofiar, comprometendo o crescimento. A postura pode provocar injúria. Os sintomas característicos da sua alimentação são mais evidentes no período da colheita, quando se observa mudanças de cor na superfície foliar ou ressecamento acrescido de desfolha. Também podem adquirir e transmitir vírus, bactérias e fitoplasmas prejudiciais às plantas.
Controle: A prática cultural de desponte de ramos, também conhecida como poda verde, possivelmente reduz a população de cigarrinhas, uma vez que as folhas com ovos viáveis podem ser eliminadas. No Nordeste, as maiores infestações são verificadas nos meses mais quentes do ano. Produtos biológicos e químicos registrados no Brasil pode ser utilizados no início da infestação.
Foto: José Eudes de Moraes
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Duração: 90 dias a contar da data de inscrição
Carga horária: 40