Diversos fatores podem comprometer de forma severa a produtividade da videira, dentre esses destacam-se as doenças. Entre as enfermidades de maior relevância econômica, destacam-se as fúngicas: míldio, oídio, podridão de Glomerella, ferrugem, antracnose, requeima e o complexo conhecido como declínio da videira; o cancro bacteriano, principal doença bacteriana da videira, e as doenças causadas por vírus: enrolamento da folha, o complexo do lenho rugoso, a mancha ou mosaico das nervuras, a degenerescência da videira e a necrose das nervuras.
Míldio
(Plasmopara viticola)
É favorecido por clima quente e úmido. Mesmo em regiões semiáridas, causa grandes danos no primeiro semestre, durante o período chuvoso. Cultivares de Vitis vinifera são mais suscetíveis que as de V. labrusca. Sem manejo adequado, pode provocar severas perdas devido à rápida disseminação do patógeno.
Sintomas: O patógeno afeta folhas, ramos, inflorescências e frutos. Nas folhas, surgem manchas amareladas de aspecto oleoso na face superior e mofo branco na face inferior em condições úmidas, podendo ocorrer desfolha. Brotos e ramos escurecem e ficam recobertos pelo fungo. Inflorescências deformam-se e cachos apresentam escurecimento da ráquis e murcha das bagas, que podem tornar-se coriáceas.
Manejo: Deve ser iniciado precocemente, preferencialmente de forma preventiva em condições favoráveis à doença. A inspeção frequente do parreiral e a remoção de folhas infectadas auxiliam no controle. O uso de fungicidas é a principal estratégia, recomendando-se alternar produtos sistêmicos e protetores, bem como diferentes princípios ativos, para evitar resistência.
Foto: Maria Angélica G. Barbosa
Oídio
(Erysiphe necator)
O oídio é uma das doenças da videira mais importantes em regiões de clima seco e com baixa precipitação, como o Vale do São Francisco. Sua ocorrência é mais intensa no segundo semestre, quando predominam temperaturas mais amenas e baixa umidade. Nessas condições, a doença pode causar perdas significativas se não houver controle adequado.
Sintomas: A doença afeta as partes verdes da planta, com crescimento branco a acinzentado em folhas, ramos, flores e frutos. A infecção na inflorescência provoca queda de flores e bagas. Nas uvas, surgem manchas e rachaduras, reduzindo a qualidade. As rachaduras favorecem a entrada de patógenos causadores de podridões.
Manejo: O controle baseia-se principalmente na aplicação de fungicidas. As pulverizações devem iniciar no começo da brotação, prevenindo infecções a partir de micélio dormente. O enxofre é amplamente utilizado, devendo ser alternado com fungicidas sistêmicos. O número de aplicações depende da intensidade da doença, avaliada por monitoramento frequente do parreiral.
Foto: Maria Angélica G. Barbosa
Podridão da uva madura
(Colletotrichum spp.)
Causada por diversas espécies de Colletotrichum, ocorre principalmente em regiões tropicais e subtropicais úmidas. Manifesta-se próximo à colheita, dificultando o controle e causando perdas significativas. Algumas espécies também infectam manga, indicando possível infecção cruzada.
Sintomas: Aparecem nas bagas no início do amadurecimento, quando surgem manchas pardo-avermelhadas ou alaranjadas, circulares ou concêntricas. Observam-se pontuações escuras correspondentes aos acérvulos do fungo, que liberam esporos sob alta umidade. As lesões evoluem para depressões, murcha e desidratação, podendo resultar em bagas secas ou mumificadas. É comum a queda de bagas.
Manejo: Deve iniciar no repouso da videira, visando reduzir o inóculo inicial. Em condições favoráveis, recomenda-se o uso preventivo de fungicidas protetores e sistêmicos, além de bioinsumos à base de Bacillus spp. A remoção de cachos ou bagas infectadas é essencial. O controle de insetos e o uso de cobertura plástica ajudam a reduzir novas infecções, especialmente próximo à colheita.
Foto: Pedro Martins Ribeiro Junior
Ferrugem
(Phakopsora euvitis)
Presente no Brasil desde 2001, quando surgiu no Paraná, foi disseminada para os outros estados do Sul e do Sudeste, além de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Roraima. No Submédio do Vale do São Francisco, foi encontrada em 2004, porém não causa maiores danos à produção devido às condições de escassez de chuvas e baixa umidade do ar. Em locais com elevada precipitação, pode ocasionar perdas severas.
Sintomas: Iniciam-se com pústulas amarelo-alaranjadas na face inferior das folhas, correspondentes a manchas marrons e angulares na face superior, surgindo cerca de 40 a 50 dias antes da colheita. Progride das folhas mais velhas para as mais novas e de latadas antigas para jovens, acompanhando a maturação dos frutos. Em infecções severas ocorre desfolha, causando bagas murchas, amolecidas e desuniformes.
Manejo: O principal é com uso de fungicidas, devendo-se atentar também à qualidade do material propagativo, para que venha isento de qualquer patógeno. Recomenda-se destruir restos de poda de material infectado e utilizar quebra-ventos e cobertura plástica.
Foto: Diógenes Batista
Antracnose
Elsinoe ampelina (Sphaceloma ampelinum)
Ocorre em todas as regiões produtoras do Brasil, sendo mais importante em áreas de clima úmido, como o Sul. Em regiões semiáridas, sua incidência é menor. Em condições favoráveis e sem manejo adequado, pode causar perdas de até 100% da produção. A doença atinge principalmente os órgãos jovens e verdes da planta.
Sintomas: Nas folhas, surgem manchas circulares castanho-escuras e deprimidas, que evoluem para necrose e podem formar orifícios. Em pecíolos e nervuras, as lesões alongadas causam deformações. Brotos, ramos e gavinhas apresentam cancros escuros e profundos. Inflorescências podem escurecer e cair. Nas bagas, ocorrem lesões necróticas com centro cinza e bordos escuros, conhecidas como “olho-de-passarinho”.
Manejo: O manejo inclui a eliminação de restos de poda e frutos mumificados. O controle químico é feito com fungicidas desde a brotação até a compactação dos cachos. A adoção de quebra-ventos auxilia na redução da umidade e da incidência da doença.
Foto: Maria Angélica Guimarães Barbosa
Cancro-bacteriano
Xanthomonas citri pv. viticola (=Xanthomonas campestris pv. vitícola)
É causado por uma bactéria altamente agressiva, amplamente disseminada no Submédio do Vale do São Francisco, onde foi registrada pela primeira vez, em 1998. Posteriormente teve ocorrência em outros estados do Brasil, com erradicação da maioria dos focos. É classificada pelo MAPA como Praga Quarentenária Presente (A2), sob controle oficial.
Sintomas: Pequenas lesões necróticas e angulares nas folhas, com ou sem halo amarelado. Em nervuras, pecíolos, ramos e ráquis formam-se manchas escuras que evoluem para fissuras negras (cancros). As bagas podem apresentar desuniformidade de tamanho e cor e, em casos severos, murcha devido a cancros na ráquis. A disseminação ocorre por mudas infectadas, ferramentas, água, chuva e irrigação.
Controle: Baseia-se em medidas preventivas, como realizar podas fora do período chuvoso, reduzir adubação nitrogenada e eliminar plantas daninhas hospedeiras. O manejo inclui fungicidas cúpricos associados a mancozebe, destruição ou compostagem de restos de poda e desinfestação rigorosa de ferramentas com produtos adequados.
Foto: Maria Angélica G. Barbosa
Declínio da videira causado por fungos
Diversos fungos estão associados ao declínio da videira em regiões vitícolas do mundo. No Submédio do Vale do São Francisco, perdas superiores a 60% têm sido registradas, especialmente em mudas e parreirais jovens. O problema pode levar à erradicação de áreas inteiras devido à baixa produtividade e à mortalidade de plantas.
Manejo: A principal medida é o uso de material propagativo sadio, embora a detecção seja difícil. Em viveiros, recomenda-se sanitização, termoterapia dos bacelos e tratamento químico das raízes antes do plantio. Em campo, o controle é limitado, devendo-se evitar estresses iniciais. A poda curativa, a eliminação de plantas severamente afetadas e a desinfestação de ferramentas são práticas essenciais.
Veja abaixo as principais doenças fúngicas que ocorrem no Brasil.
Doença de Petri
(Phaeoacremonium spp. e Phaeomoniella chlamydospora)
Acomete principalmente plantas jovens, do viveiro aos parreirais. Os sintomas incluem brotação falha, redução do crescimento, entrenós curtos, clorose ou avermelhamento foliar. Em estágios avançados, causa morte de ramos ou morte súbita próxima à colheita, quando a planta se encontra sob alta demanda energética. Internamente, observam-se pontuações escuras no xilema e pontos negros nas bagas.
Pé-preto
(Cylindrocarpon spp. e Campylocarpon spp.)
Afeta plantas jovens e apresenta sintomas aéreos semelhantes à doença de Petri: brotação falha, redução do crescimento e entrenós curtos. Algumas plantas exibem escurecimento do colo, próximo ao solo. No xilema, há estrias escuras visíveis em cortes longitudinais. As raízes podem adquirir coloração arroxeada, permanecendo aderidas apenas as de maior calibre. Na fase produtiva da planta, a morte súbita é comum.
Morte descendente
Espécies de Botryosphaeriaceae (Lasiodiplodia, Neofusicoccum, Fusicoccum, Dothiorella, Diplodia)
A morte descentende da videira pode ocorrer em material propagativo ou em plantas adultas. No ponto de enxertia, o fungo causa necrose e falhas no pegamento. Em plantas jovens ou adultas, os sintomas incluem brotação irregular, secamento dos ramos no sentido das extremidades para a base e, em cortes transversais, necroses setoriais em formato de “V”.
Fusariose
(Fusarium oxysporum f. sp. herbemontis)
Por colonizar o xilema, quando ocorre em plantas de videira a fusariose apresenta sintomas semelhantes aos demais patógenos de declínio, a exemplo da redução do vigor, ramos e folhas menores, redução ou ausência de cachos, podendo evoluir para morte da planta. Internamente, observa-se descoloração vascular. Além disso, as raízes infectadas podem apresentar coloração rósea intensa.
Eutipiose
(Eutypa lata)
Característica de plantas adultas, resulta em declínio progressivo: brotação fraca, entrenós curtos, clorose e folhas reduzidas. Bordos foliares podem apresentar necroses marginais. No lenho, observam-se necroses em “V”.
A principal medida de manejo é o uso de material propagativo sadio. Ferramentas de poda devem ser desinfestadas com produtos clorados ou amônia quaternária e plantas totalmente comprometidas devem ser erradicadas com raízes.
Viroses
Mais de 100 vírus já foram descritos em videira no mundo. No Brasil, foram registrados cerca de 21 espécies virais e três viroides.
Enrolamento da folha
Virose mais importante da videira, ocorre em todas as regiões vitícolas do mundo. Está associada a diferentes espécies de Grapevine leafroll-associated virus (GLRaV-1, 2, 3 e 4). Folhas mais velhas apresentam enrolamento e tornam-se quebradiças. Em cultivares tintas ocorre avermelhamento internerval e nas brancas há amarelecimento, mantendo as nervuras verdes. Causa redução do vigor, da produtividade e da qualidade dos frutos. O controle baseia-se no uso de material propagativo certificado e livre de vírus. A transmissão ocorre por enxertia e pelo uso de gemas, copas ou porta-enxertos infectados. A erradicação de plantas infectadas e o controle de cochonilhas reduzem sua disseminação.
Complexo do lenho rugoso
Causa redução do vigor e da produtividade das plantas e engloba doenças caracterizadas por sulcos ou enrugamento no tronco, três delas com etiologia viral confirmada pertencente à família Betaflexiviridae. Os agentes estão associados principalmente a vírus transmitidos por cochonilhas. As principais doenças incluem caneluras do tronco, associada ao GRSPaV, que também pode causar necrose das nervuras; canaladura do lenho de Kober, causada pelo GVA e o intumescimento dos ramos, causado pelo GVB. O manejo baseia-se no uso de material propagativo sadio e certificado, incluindo copas e porta-enxertos, além do controle das cochonilhas.
Degenerescência da videira
Causada pelo nepovírus Grapevine fanleaf virus (GFLV) transmitido pelo nematoide Xiphinema index. É rara no Brasil mas tem grandes impactos econômicos, afetando a produtividade e podendo causar a morte de plantas. Sem a presença do Xiphinema index, o controle se dá pelo uso de material propagativo sadio. Com a presença do nematoide e do vírus juntos o controle é muito difícil e deve-se realizar a remoção completa de raízes infectadas; evitar plantio de videiras por até 10 anos ou realizar rotação com espécies não hospedeiras; utilizar porta-enxertos resistentes ao vetor; e prevenir introdução e espalhamento por desinfestação de ferramentas e maquinário.
Mancha ou mosaico das nervuras
Causada por GFkV (Grapevine fleck virus) Provoca manchas cloróticas irregulares, deformação das folhas e redução do crescimento, mas pode permanecer assintomático em algumas cultivares. Em videiras infectadas com o GFkV no Vale do São Francisco, o GRVFV (Grapevine rupestris vein feathering virus) é frequentemente encontrado associado a este vírus. Como não há vetores conhecidos, o controle é preventivo, pela utilização de material propagativo sadio.
Curso
Manejo de pragas e doenças de videiras do Semiárido
O objetivo deste curso é capacitar os participantes para identificar e manejar as principais pragas, doenças e viroses que afetam a videira no semiárido brasileiro, com foco no uso de métodos de controle integrado, incluindo o controle biológico. Também ajuda você a entender os fatores que influenciam a deposição dos produtos aplicados e as perdas de pulverização, além de mostrar como usar os equipamentos adequados para otimizar o processo de aplicação. A capacitação é on-line e gratuita.
Organizadora: Embrapa
Duração: 30 dias
Carga horária: 10 horas
Publicações
Recomendações fitossanitárias para a pós-colheita na videira
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Cancro Bacteriano da Videira
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Este livro reúne o esforço de pesquisa envidado pela Embrapa Semiárido e por seus parceiros ao longo de décadas, para consolidar o setor vitivinícola regional e contribuir para a ampliação e o fortalecimento das oportunidades econômicas na região. A publicação aborda os mais diversos aspectos, desde o histórico e a importância socioeconômica da cultura até o manejo e mercados.
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