A partir do terceiro ano, o cafezal entra em sua fase de maturidade e o foco muda do crescimento para a gestão da colheita e a sustentabilidade da produção ano após ano.
A produção de café é baseada em um ciclo anual, que começa logo após a colheita anterior. As principais atividades são:
A. Tratos Culturais
Estas atividades são realizadas todos os anos para garantir a saúde e a produtividade da planta:
Manejo Nutricional (Adubação): É uma das tarefas mais importantes. O café "exporta" muitos nutrientes do solo para os grãos. O produtor deve repor esses nutrientes. Isso é feito com base em:
Análise de Solo: Para saber o que há disponível na área cultivadaterra.
Análise Foliar: Para saber o que a planta está realmente absorvendo.
Manejo Fitossanitário:
Pragas: O monitoramento constante da Broca-do-café (que ataca o grão) é fundamental.
Doenças: O principal desafio é a Ferrugem-do-cafeeiro (um fungo que ataca as folhas), que pode dizimar a produção se não for controlada com fungicidas (na agricultura convencional ou orgânica).
Manejo de Ervas Daninhas: O controle do "mato" deve ser contínuo, seja com herbicidas, roçadeiras mecânicas ou capina.
Manejo Hídrico (Irrigação): Em muitas regiões (como o Cerrado Mineiro), a irrigação (via pivô central ou gotejamento) é essencial para garantir a produtividade e a uniformidade da florada. Geralmente, a irrigação deve ser iniciada antes que o solo atinja o Ponto de Murcha. O cafeicultor entra com a irrigação quando o solo perde a maior parte da Água Facilmente Disponível (AFD), o que corresponde a:
Tensão de Água no Solo: Quando a tensão atinge cerca de -0,1 a -0,5 MPa (ou 1 a 5 bar).
Umidade Crítica: Quando o solo atinge uma umidade próxima a 50% da Água Facilmente Disponível (AFD), para evitar qualquer estresse que possa impactar a floração ou o enchimento dos grãos.
Em resumo, não há uma "umidade mínima" única que se aplique a todos os solos, mas a irrigação é acionada assim que a disponibilidade de água cai para um nível que possa causar estresse hídrico e, consequentemente, queda na produtividade.
B. Podas
O cafeeiro Arábica produz, principalmente, nos ramos do ano. Com o tempo, os ramos envelhecem e a produção se concentra para a ponta, tornando a planta menos produtiva e difícil de colher.
A poda é uma ferramenta vital para rejuvenescer a planta e gerenciar a safra. Os principais tipos de poda na fase de produção são:
Decote (ou Topo): Cortar o topo da planta para controlar a altura, facilitando a colheita (manual ou mecanizada).
Esqueletamento: Uma poda drástica que remove todos os ramos laterais ("plagiotrópicos"), deixando apenas o tronco e os ramos principais ("ortotrópicos"), forçando a planta a brotar inteiramente.
Recepa: A poda mais drástica. O tronco principal é cortado baixo, perto do solo. A planta essencialmente "renasce" a partir daquele ponto.
A poda do cafeeiro permite rejuvenescer a lavoura e manter a alta produtividade a longo prazo. Basicamente consiste no corte estratégico de ramos velhos, doentes ou improdutivos.
C. O Ciclo Anual da Frutificação
Florada (Setembro/Outubro - no Brasil): Após um período de estresse hídrico (seca) seguido das primeiras chuvas (ou irrigação), os cafezais explodem em flores brancas e perfumadas.
Granação (Novembro a Março): As flores são polinizadas e dão lugar a pequenos frutos verdes ("chumbinhos"). Esta é a fase crítica de desenvolvimento do grão, onde a planta precisa de água e nutrientes.
Maturação (Abril a Julho): Os frutos crescem e começam a amadurecer, passando do verde para o amarelo e, finalmente, para o vermelho-cereja (ou amarelo, dependendo da variedade). Nesta fase, o grão acumula os açúcares que definirão a qualidade da bebida.
D. A Colheita
Colheita Manual:
Derriça no Pano/Chão: Os frutos são derriçados (puxados) com a mão ou com ferramentas todos de uma vez (verdes, maduros e secos) sobre um pano ou no chão. É rápido, mas mistura qualidades.
Colheita Seletiva (Picking): Usada para cafés especiais. A colheita é realizada várias vezes, colhendo-se apenas os frutos maduros (cerejas). O custo é maia elevado, mas resulta em um produto de qualidade superior.
Colheita Mecanizada:
Máquinas (colheitadeiras) passam sobre as linhas de café, usando varetas vibratórias para derrubar os frutos. É altamente eficiente e mais barato em grandes áreas planas.
Grãos resultantes da colheita mecânica (à esquerda) e o grão cereja (à direita), que requer colheita manual para manter a qualidade e por isso o momento certo para manter a uniformidade.
Na colheita mecanizada a máquina colhe um lote muito diverso em termos de qualidade, o que é um desafio para quem busca cafés especiais. A principal característica da colheita mecanizada (em relação à manual seletiva) é que ela não é "inteligente". Ela é eficiente. Como a colheita mecanizada é muito mais rápida e barata, ela é essencial para a viabilidade da cafeicultura moderna em grandes áreas. Para lidar com a "diversidade" de maturação a colheita mecânica gera, os produtores investem pesadamente no processamento pós-colheita.